Opressão

desenho-design-girl-japanese-menina-Favim.com-250105_large

Julieta vivia em um orfanato. Tinha dez anos e sabia que um dia ia sair dali, para finalmente ver outras cores além das paredes emboloradas. Tinha uma ou duas amiguinhas, no máximo. Estava sempre com a mesma expressão e tinha certo medo de sorrir ou de chorar: fazia isso escondida, longe dos outros.

Era obrigada a sorrir apenas quando um casal ia visitar o orfanato em busca de um filho. A Dona Lúcia fazia todas as crianças tomarem banho antes da visita e deixava cada uma em seu respectivo quarto. Assim os futuros pais entravam de quarto em quarto.

Julieta penteava o cabelo sem graça e comprido. Sentava na cama velha e tentava, ao máximo, sorrir. Sabia muito bem o que acontecia nos dias de visita: rejeição e olhares de nojo.

“Essa menina tem distúrbios”, Dona Lúcia dizia para o casal quando entravam no quarto. “Terei pena dos pais dela”.

Julieta chorava um pouquinho quando o casal saía, transtornado.

Mas uma coisa Julieta fazia muito bem: tocava flauta. Um dia, caminhando no orfanato, viu o objeto prateado brilhando embaixo do sofá. Pegou para si e, rapidamente, aprendeu a tocar. Suas duas amiguinhas adoravam quando ela fazia música, e Dona Lúcia até esboçava admiração no rosto carrancudo. E quando a menina estava inspirada a tocar, Dona Lúcia entrava com o casal em seu quarto e dizia:

– Veja como toca bem, a pequena menina! Um prodígio!

Quando a menina, porém, errava uma nota, logo a velha fazia cara feia e tirava o casal do quarto. Julieta sabia que teria uma sessão de palmatória mais tarde.

Por isso Julieta evitava mostrar emoções ou sair da linha. Evitava falar o que sentia também, para não correr o risco de chorar. Talvez fosse mesmo um monstro, bicho ruim que ninguém sabia domar. Era difícil para a criança entender a razão pela qual os adultos a odiavam. O resultado dessa tal opressão foi esse: quietude. Sabia que ninguém entenderia uma palavra do que ela diria em contestação. Julieta evitava mostrar emoções, mas quando fazia música ela sorria.  Sorria quando pegava seu urso velho de pelúcia e recebia um pouco de carinho. Às vezes ria e chorava junto, indecisa e emocionada. Não sabia muito bem como se controlar.

Ficou anos e anos nesse ciclo. Visita, rejeição, choro. Flauta, carinho do urso, sorriso. Suas amigas nem estavam mais no orfanato e as novas meninas que entravam nem se atreviam a chegar perto, de tanto Dona Lúcia dizer que a menina não valia o chão que pisava.

Mas chegou o tão esperado dia. Julieta fez 18 anos. Não teve bolo, não teve presentes, não teve um aperto de mão. Mas todos no orfanato viam que ela sorria de orelha a orelha, com a maletinha de roupas antigas e pequenas na mão. Na outra, seu urso e a flauta.

Desfilou pelo orfanato, feliz da vida. Isso mesmo, feliz. Pela primeira vez na vida. Dona Lúcia balbuciou alguma coisa, como se quisesse dizer que sentiria saudade. Julieta pouco se importou: pegou seus documentos de identidade, enfiou na maletinha e saiu porta afora.

Ela sempre soube que ia sair dali, para finalmente ver outras cores além das paredes emboloradas. Viu o céu azul e sorriu, sem ninguém para obrigá-la a nada.

Mariana

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s